Por que falar de periferias?

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Haroldo da Gama Torres e Mauricio Ernica

A distância – física e social – em relação ao centro define nossa posição não só socioeconômica, como também hierárquica na simbologia da cidade. E, nesse sentido, a relação centro-periferia continua fundamental para todo planejamento que busque dialogar com as desigualdades sociais da cidade

As metrópoles brasileiras transformaram-se profundamente nos últimos trinta anos, tornando-se mais complexas do ponto de vista urbanístico. Tais mudanças colocam questões para o modelo centro-periferia, frequentemente utilizado para pensá-las. Será, então, que ainda faz sentido usar os conceitos de centro e periferia para pensar cidades como São Paulo? E até que ponto eles são pertinentes para planejar intervenções voltadas à redução de desigualdades sociais?

Na década de 1970, sobretudo a partir dos trabalhos de Lúcio Kowarick e Francisco Oliveira, a periferia paulistana foi caracterizada como um espaço urbano particular, marcado por loteamentos desorganizados, carentes de serviços públicos e com precárias moradias autoconstruídas. Esses locais concentravam residências da nova classe operária migrante, que vinha formar o exército necessário à produção industrial com baixo custo de mão de obra.

A partir dos anos 1980, a cidade passou por profundas transformações, com perda de musculatura industrial em ciclos sucessivos – se, em 1975, quase 35% da população economicamente ativa estava empregada na indústria, hoje esse número caiu para menos de 15%.

Ao mesmo tempo que se desindustrializava, São Paulo passou por forte processo de modernização, tornando-se sede de mais da metade dos grandes grupos econômicos do país e o centro organizador, em escala nacional, de diversos serviços, tais como financeiros, de mídia e publicidade, médico-hospitalar e de tecnologia da informação.

Essa transformação trouxe consequências agudas para as periferias. Em comparação à indústria, os serviços têm uma estrutura ocupacional mais desigual, com menos profissionais de renda média e maior proporção de trabalhadores de baixa qualificação. Assim, a queda no emprego industrial induziu à formação de bolsões de desemprego em antigas regiões operárias, que empobreceram e sofreram com a desorganização de formas de vida vigentes até então.

A crise social que germinava nas periferias foi parcialmente contrabalançada pela atuação do setor público. Com a Constituição Federal de 1988, o Estado assumiu um papel mais ativo na provisão de direitos sociais, o que produziu, de modo geral, melhorias nas condições de vida, observáveis, em indicadores de mortalidade infantil, expectativa de vida e escolarização, por exemplo. Também as políticas de reajuste do salário mínimo e de transferência de renda, como o Bolsa Família, tiveram papel importante na redução da pobreza extrema.

Os resultados dessas transformações já eram visíveis no início do século 21. Em antigas áreas operárias, como Tatuapé e Mooca, expandiram-se núcleos de alta renda, enquanto que, no entorno da cidade, desenvolveram-se subúrbios ricos, como Alphaville, beneficiados pelas novas autoestradas. O centro antigo, por sua vez, empobreceu, sofrendo com ‘cracolândias’ e bolsões de concentração de migrantes em situação de extrema pobreza, como os oriundos de países como Bolívia e Nigéria.

APESAR DE O MOSAICO URBANO DA METRÓPOLE PAULISTANA SER HOJE MUITO MAIS COMPLEXO, OBSERVA-SE QUE A RELAÇÃO CENTRO-PERIFERIA CONTINUA PRESENTE, DECISIVAMENTE, NO MODO COMO OS PAULISTANOS PENSAM A CIDADE E SE RELACIONAM UNS COMO OS OUTROS.

Em paralelo a essas mudanças, continuam a existir áreas marcadamente periféricas, como os distritos paulistanos de Grajaú ou Perus, cidades dormitório como Ferraz de Vasconcelos e Francisco Morato, bem como áreas centrais muito ricas, caso do eixo da Avenida Faria Lima. Em outras palavras, a cidade que podia ser pensada pelo modelo centro-periferia dos anos 1970 transformou-se em um mosaico urbano mais complexo.

Ainda assim, a relação centro-periferia continua organizando as representações que o paulistano tem da metrópole. É o que nos mostra, inequivocamente, uma pesquisa realizada pelo DataFolha e pela Fundação Tide Setubal em abril de 2016, como parte das atividades do “Seminário Cidades e Territórios: encontros e fronteiras na busca da equidade”.

A periferia continua sendo um local muito bem definido simbolicamente. Os extremos da cidade (Sul-2, Leste-3 e Norte-2) são as regiões mais lembradas pelo paulistano como periféricas, opinião partilhada por mais de 80% dos moradores dessas regiões. As regiões intermediárias (Norte-1 e Leste-2), ainda que menos citadas espontaneamente como sendo periféricas, são descritas como tal por mais de 50% de seus moradores.

Na percepção do paulistano, as regiões não-periféricas se restringem ao Centro Expandido (Oeste-1, Sul-1, Centro e Leste-1), sendo a Avenida Faria Lima (Oeste-1) o centro por excelência da nova região central. Esta região é representada quase univocamente por atributos positivos: oferece mais empregos e serviços de melhor qualidade, como os de infraestrutura, saúde, educação, segurança, cultura e lazer. Não por acaso, os moradores das áreas mais centrais são mais propensos a afirmar que vivem na melhor região da cidade. A valorização do centro em relação à periferia pode ser vista ainda nos desejos de mudança de local de moradia. A preferência do paulistano pelo local de moradia revela um sentido nítido: vai dos bairros mais periféricos e mais pobres para os mais centrais e mais ricos.

Por sua vez, as periferias são frequentemente descritas por atributos negativos: pobreza, infraestrutura urbana precária, insegurança, violência e abandono. Além disso, o paulistano reconhece que as periferias sofrem preconceito dos moradores das demais regiões: 30% dos paulistanos que afirmam morar na periferia alegam ter sofrido preconceito por causa do bairro em que vivem, especialmente em situações do dia-a-dia e em entrevistas de emprego. Como contraponto à representação negativa, as periferias são vistas como lugares de solidariedade e amizade, com mais pessoas mobilizadas para resolver seus problemas.

Assim, apesar de o mosaico urbano da metrópole paulistana ser hoje muito mais complexo, observa-se que a relação centro-periferia continua presente, decisivamente, no modo como os paulistanos pensam a cidade e se relacionam uns como os outros. Antes de ser apenas um lugar físico, a periferia persiste como lugar simbólico importante em um sistema de relações cujo polo dominante é o centro. A distância – física e social – em relação ao centro define nossa posição não só socioeconômica, como também hierárquica na simbologia da cidade. E, nesse sentido, a relação centro-periferia continua fundamental para todo planejamento que busque dialogar com as desigualdades sociais da cidade.

A boa notícia é que muitos paulistanos parecem abertos a essa discussão: 70% deles concordam que as periferias deveriam receber mais investimentos que outras regiões. Mesmo que tal resposta possa ser apenas uma manifestação sem compromisso em uma pesquisa anônima, ela revela que o tema continua parte do nosso repertório político e da nossa consciência social. Talvez seja um bom ponto de partida para trazermos novamente a desigualdade urbana para o debate.

Haroldo da Gama Torres é empreendedor, economista  e demógrafo, com especialização na área social. Prestou serviços para mais de 200 organizações de grande porte em áreas como educação, business intelligence, microcrédito, educação empreendedora, avaliação de impacto, saúde e habitação. Tem publicado extensamente e colaborado com diferentes empresas, organizações multilaterais, ONGs e agências governamentais. É sócio da Din4mo, especializada na promoção de negócios com impacto social.

Mauricio Ernica é sociólogo, professor da Faculdade de Educação da Unicamp. Desde 1995 tem atuado em projetos de pesquisa e intervenção em organizações da sociedade civil, especialmente o Cenpec – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária e a Fundação Tide Setubal. Suas pesquisas abordam a relação entre educação e desigualdades.

Fonte: Nexo

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